domingo, 4 de junho de 2017

Um primeiro questionamento

No decorrer do texto por nós discutido ao longo deste ano, Pulsões e destinos da pulsão, Freud nunca deixa de salientar que a pulsão constitui-se como um conceito ainda obscuro para a teoria psicanalítica, tanto no que diz respeito à sua observação clínica quanto, consequentemente, à sua definição teórico-conceitual. Apesar disso, Freud propõe uma distinção entre pulsão (Trieb) e estímulo (Reiz). Resumidamente, a pulsão pode ser considerada um estímulo aplicado à alma (alma aqui em um sentido muito distante do sentido religioso, simplesmente como aquilo que anima o corpo). Mas o que isso quer dizer? Em primeiro lugar, devemos salientar que a pulsão, de acordo com Freud, surge no organismo, sendo impossível removê-la a partir de uma ação motora. Assim, a pulsão é constante e irremovível. “[...] visto que ela [a pulsão] incide não a partir de fora mas de dentro do organismo, não há como fugir dela” (Freud, 1915, p. 124).


O estímulo, de uma maneira geral, pode ser eliminado em decorrência de uma ação motora em forma de descarga, devido à sua condição externa e momentânea. “Por exemplo, a luz forte que incide sobre a vista não é um estímulo pulsional; já a secura da membrana mucosa da faringe ou a irritação da membrana mucosa do estômago o são” (Freud, 1915, p. 124). Grande parte das edições dos escritos freudianos traduz o termo Trieb (sendo pulsão o termo que mais se aproxima da ideia original proposta por Freud) por instinto. Entretanto, Freud utiliza a palavra Instinkt para designar um determinismo anterior ao ser humano, ou seja, uma repetição cega da espécie. Nesse sentido, a partir da diferenciação terminológica entre pulsão, estímulo e instinto, surge um questionamento acerca do caminho seguido. Há, de início duas possibilidades para a discussão:

Estímulo - instinto - pulsão
ou
Estímulo - pulsão

A questão é se haveria em nós um instinto anterior ao surgimento da pulsão, ou se a dinâmica seria resumida apenas a um estímulo pulsional. Este questionamento ainda se mantém em nosso grupo, e será necessário avançar mais nas leituras para buscar uma resposta mais próxima ao texto freudiano. Esperamos que todos venham conosco nesta busca.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Uma prévia sobre pulsão, suas representações e o conhecimento científico


A pulsão é inicialmente citada como “instinto”, quando traduzida do inglês [instinct], ou como impulso/pulsão” quando traduzida do alemão [Trieb]. A pulsão, para Freud, é algo que nunca se torna objeto da consciência pois ela necessita de uma representação [Vorstellung] e ainda de um representante [Repräsentanz] que a conduza até o Consciente. Assim, o que pode vir a se tornar  consciente é o representante desta representação [Vorstellungsrepräsentanz]. Para Freud, no texto sobre O recalque, “além da representação, outro elemento representativo da pulsão tem de ser levado em consideração” (Freud, 1915/1996, p.157). Nesse sentido, partindo da ideia inicial de uma indistinção entre a própria pulsão e seu representante, Freud irá traçar nos textos seguintes, em especial O recalque e O inconsciente, uma distinção mais acentuada entre estes dois pontos.
As nomeações para as moções pulsionais [Triebregingen] surgiram pela primeira vez em Atos Obsessivos e Práticas Religiosas (Freud, 1907/1996), mas já existiam anteriormente caracterizados como excitações ou estímulos endógenos. Podemos diferenciar o estímulo da pulsão a partir de sua constância: enquanto o estímulo se dá como uma força geradora de um impacto, a pulsão atua como uma força que é sempre constante. Até 1910, Freud dizia de uma pulsão sexual que usava da libido como expressão; só depois o conceito de pulsão do eu foi introduzido aos textos como um impulso de autopreservação; a pulsão de morte só vem a surgir no ano de 1920, em Além do princípio de prazer, sendo nela consideradas as pulsões agressivas e destrutivas.
Durante o nosso estudo, nos depararemos com variados conceitos e até mesmo divergências entre eles – como já ocorrido até o momento. Para isso, é importante que saibamos como o conhecimento científico é elaborado, e nesse sentido Freud apresenta uma boa introdução em seu texto Pulsões e destinos da pulsão (1915/1996). A primeira etapa é a descrição do fenômeno a ser o objeto de estudo; as ideias que aparecerem nessa etapa serão os conceitos básicos da ciência; os conceitos científicos só serão elaborados após uma investigação completa no campo da observação, e assim se tornará uma definição.
A pulsão pode ser considerada como um conceito básico, que apesar de essencial ainda necessita de um aprofundamento em seus estudos. Esse conceito esbarra e atravessa conteúdos de diversos ângulos, como por exemplo, o estímulo e estímulo mental em fisiologia. Nesse sentido, tentaremos, nos próximos encontros, estabelecer um diferencial entre estímulos fisiológicos, estímulos instintuais (no sentido biológico) e estímulos pulsionais.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Retomando as atividades

Após um longo período de publicações referentes aos anos de 2015 e 2016, objetivando realizar leituras acerca dos conceitos fundamentais da Psicanálise, nosso grupo de pesquisa da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) retorna novamente ao seu trabalho e, nesse ano de 2017 temos como finalidade efetivar um estudo detalhado do conceito de Pulsão (Trieb) na obra de Freud. Como sempre, buscamos a compreensão dos conceitos fundamentais da Psicanálise através da leitura atenta e dirigida dos textos freudianos, em diversas versões, inclusive o texto original alemão.
Visto que nos anos de 2015 e 2016 foram estudados os conceitos de Inconsciente e recalque, respectivamente, considerou-se plausível uma análise minuciosa do texto Pulsões e destinos da pulsão (Triebe und triebschicksale), escrito por Sigmund Freud em 1915. As versões utilizadas, até então, serão as seguintes: duas edições diferentes da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – 1987 e 1996, ambas da Imago; a tradução de Luiz Hanns das Obras psicológicas de Sigmund Freud, também da Imago; a versão da Editora Delta, mais rara e difícil de se encontrar no Brasil, intitulada Obras completas de Sigmund Freud; a versão inglesa The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud da The Hogarth Press; a edição da Companhia das Letras: Sigmund Freud – Obras completas; a versão traduzida direta do alemão ao espanhol de Luis López Ballesteros y de Torres, intitulada Obras Completas, da editora Biblioteca Nueva; a versão argentina Obras completas – Sigmund Freud da Amorrortu Editores; a versão alemã Gesammelte Schriften da Internationaler Psychoanalytischer Verlag; e a versão alemã Gesammelte Werke, publicado pela Fischer Taschenbuch Verlag.

Assim nosso blog será novamente atualizado com publicações a respeito dos conceitos discutidos, visando sempre destrinchar as ideias de Freud, da maneira mais fidedigna possível aos escritos por ele elaborados, visto que as traduções dos textos freudianos possuem terminologias empregadas de maneira divergente e até mesmo imprecisa, dificultando assim a compreensão das ideias originalmente elaboradas pelo autor.
Sejam todos novamente bem-vindos.
Aguardamos as leituras e comentários de todos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Aviso aos navegantes IV

Como já postamos anteriormente, ao longo da obra de Freud na tradução brasileira da Standard Edition, encontram-se escolhas de tradução que por vezes são feitas de forma indistinta, outras por opção de palavras que não se faz muito clara e acessível, usando palavras pouco usuais no português cotidiano, e é claro, encontramos muitos erros de tradução. E mais uma vez nos deparamos com percalços deste tipo que são de extrema importância elucidar para nossos leitores, pois estes pontos fazem toda a diferença para a compreensão do que o pai da psicanálise queria nos propor.
Sendo assim, no texto O recalque de 1915, na edição de 1974, página 171, encontramos um trecho em que Freud nos fala sobre o segundo momento do recalque, o recalque propriamente dito. Vejamos o trecho em que Freud está falando sobre os chamados derivados mentais (já aqui a melhor tradução seria por derivados psíquicos [psychische Abkömmlinge]) e as ligações que vão ocorrer entre tais derivados, o que foi recalcado posteriormente e o recalque originário.
Além disso, é errado dar ênfase apenas à repulsão que atua a partir da direção do consciente sobre o que deve ser reprimido; igualmente importante é a atração exercida por aquilo que foi primevamente repelidosobre tudo aquilo com que ele possa estabelecer uma ligação. (...) Provavelmente, a tendência no sentido da repressão falharia em seu propósito, caso essas duas forças não cooperassem, caso não existisse algo previamente reprimido pronto para receber aquilo que é repelidopelo consciente. (FREUD, 1915/1974, p.171-172, grifos nosso)

Encontramos no trecho acima três palavras em destaque para as quais chamamos a atenção para as questões de tradução. Para a primeira em destaque, repulsão, temos no original freudiano a palavra Abstoßung, que se traduz por empurrão, repulsa. Aqui Freud se refere à força exercida pelo Consciente sobre a representação recalcada. Já na segunda palavra que destacamos, repelido, Freud usa o Urverdrängte, que se traduz, como já dissemos anteriormente, por recalque originário, portanto, um erro flagrante de tradução. Temos ainda, uma terceira palavra em destaque, o repelido (Abgestoßene), que está também correta, ou seja, se refere àquela representação que chega ao Inconsciente advinda do Consciente e que, no Inconsciente vai se ligar a outros elementos, oriundos do recalque originário.
Assim notamos uma nova falha na tradução para o português. Além da escolha de tradução da palavra Verdrängung por repressão durante o texto, também temos a confusão na tradução entre duas palavras, bem à maneira das ligações inconscientes, as palavras na edição brasileira se misturam e surgem, uma no lugar da outra. Temos dois momentos em que Freud fala do que foi repelido, ao início e ao fim do trecho por nós citado. Entretanto, ao meio, a palavra Urverdrängtefoi traduzida erroneamente, também por repelido.
Fato interessante é que esta tradução se dá erroneamente apenas em português. A versão inglesa corretamente traduz o Urverdrängte por primally repressed concordando com sua proposta de tradução. Ainda que não concordemos com a escolha de tradução (repressão ao invés de recalque), temos que notar que há uma coerência na tradução do alemão para o inglês. Já a versão brasileira, perde ainda mais com a tradução, errando a 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O recalque na neurose obsessiva.



Apenas a título de ilustração, cabe lembrar que a palavra usada por Freud para o que conhecemos como Neurose Obsessiva é Zwangsneurose, que literalmente, deveria ser traduzia por Neurose Coerciva (de Zwang – coerção, coação). A tradução desta palavra (Zwang) por obsessão ou por compulsão se deveu às escolas inglesa e francesa de psiquiatria, respectivamente. Entretanto nenhuma das duas palavras apresenta a principal característica do pensamento daqueles que costumamos chamar de Neurótico obsessivo – a obrigatoriedade do pensamento, a sensação de ser coagido, de ter que pensar coercitivamente. Um pequeno exemplo para nos ajudar a entender. Normalmente não agimos agressivamente contra um amigo, mas imaginem a situação: uma pessoa coloca uma arma em sua cabeça e lhe diz para agredir fisicamente um amigo que se encontra à sua frente. Ainda que você não queira, você acaba por fazê-lo. Esta é a ideia de coerção incluída na palavra alemã, esta é a forma como o pensamento do obsessivo acontece. De toda forma, manteremos a tradução Neurose Obsessiva, posto que esta se estabeleceu no meio psicanalítico brasileiro.
Agora, partiremos para a terceira e última forma de recalque que Freud nos apresenta no texto O recalque (1915/1974), sobre a neurose obsessiva. Freud no início do trecho sobre a neurose obsessiva (p.180) vem nos dizer de sua dúvida, se o que é recalcado é um anseio sádico ou hostil do representante, e ao longo do texto nos apresenta que na verdade um anseio sádico entrou no lugar de um anseio amoroso, e é exatamente este anseio hostil contra uma pessoa amada que sofre o recalque.
Freud coloca que em um primeiro momento o recalque tem sucesso absoluto, pois o conteúdo da representação é recusado (abgewiesen) e o afeto desaparece (Verschwinden). O Eu se altera devido a uma formação substitutiva e há um aumento de conscienciosidade, o que não pode ser chamado de sintoma. O que podemos notar então é que Freud distingue formação substitutiva de sintoma. O que vemos nesse caso é que o mecanismo do recalque coincide com o da formação reativa, mas difere temporal e conceitualmente da formação de sintoma.
Após este primeiro momento, o sucesso que parecia certo não se mantém. A ambivalência que permitiu o recalque por meio da formação reativa é o mesmo ponto que permite àquilo que foi recalcado retornar.
A representação recusada volta agora como um substituto por deslocamento, e o fracasso do fator afetivo retorna como evitações e proibições, como discutimos anteriormente sobre as fobias histéricas (ver postagem sobre O recalque na histeria de medo), ainda que haja uma tendência de que tal representação retorne completa e intacta. De toda forma, à representação é recusado o acesso ao Consciente, o que promove o impedimento da ação, travando o impulso motor. O recalque na neurose obsessiva é, portanto, um fracasso que resulta em uma luta sem êxito nem fim.
O pensar obsessivo é caracterizado por distorções. O obsessivo fica absorto na esfera do pensamento e acaba procrastinando a descarga da tensão através de longos processos de ruminação. Apresenta em seu discurso o deslocamento de afeto de uma representação para outra, já que grandes males o aguardam caso a sua ação não seja simétrica aos padrões de seu pensamento. Entra aqui em cena o processo de Inibição, que nada mais é do que a inibição da descarga motora da pulsão. Pensando no famoso esquema do pente (ver a postagem sobre as Três barreiras à representação), o processo se interrompe sem chegar ao fim, a descarga motora.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O recalque na histeria de conversão

Continuando com os processos de recalque nas três neuroses, vamos agora para a Histeria de conversão, na qual Freud aponta para uma diferença importante no processo do recalque.

Aqui diferentemente da Histeria de medo onde o que é recalcado é a representação, o processo do recalque proporciona um completo desaparecimento do afeto. Dessa forma o paciente apresenta um estado que, segundo Freud, Charcot denominou de la belle indifférence des hystériques. Indiferença no sentido de que os sintomas, como as clássicas paralisias de membros, não chegam sequer a incomodar o paciente.

Outra maneira, que não obtém tanto sucesso quanto a primeira, ocorre quando alguma parte do afeto se liga ao sintoma, ou há uma liberação parcial de medo. Nesse caso a parte representacional do representante pulsional [a representação] é completamente privada da consciência. No lugar desta representação “(...) como um substituto - e ao mesmo tempo como um sintoma - temos uma inervação surperforte (em casos típicos, uma inervação somática), às vezes de natureza sensorial, às vezes, motora, quer como uma excitação, quer como uma inibição” (Freud, 1915/1974, p.180). Por meio do processo de condensação essa área superinervada, uma parcela do próprio representante pulsional recalcado, age atraindo todo o seu investimento.


No que se refere ao êxito do recalque na Histeria de conversão, podemos considerá-lo em dois aspectos: em um primeiro, podemos considerar falho pelo fato de que fica-se buscando uma grande quantidade de substitutos no corpo (em sua maioria) para aquilo que foi recalcado; por outro lado, podemos considerar o recalque na histeria de conversão alcançando êxito pelo fato de que “(...) o processo do recalque é completado pela formação do sintoma, e não precisa, como na histeria de medo, continuar até uma segunda fase – ou antes, rigorosamente falando, continuar interminavelmente. (Freud, 1915/1974, p.180).

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O recalque na histeria de medo.


Antes de começarmos a discutir o que Sigmund Freud, em seu artigo Recalque (1915), fala especificamente a respeito da Histeria de medo, vamos esclarecer um ponto que, dentre as edições que usamos para as nossas discussões semanais em nosso grupo de pesquisa, se faz muito presente: medo, ansiedade ou angústia?

A Standard Edition usa, ao longo da obra freudiana, a palavra ansiedade para traduzir o alemão Angst. Por exemplo, no artigo Recalque (1915/1974, p. 178),utiliza-se a tradução Histeria de ansiedade; temos também um famoso artigo, Hemmung, Sympton und Angst, traduzido por Inibições, sintomas e ansiedade (1926[1925]/1974). Na Edição da Companhia das Letras, o artigo sobre o Recalque[1](1915/2010), encontramos Histeria de Angústia, para o outro artigo encontramos o título é: Inibições, sintomas e angústia. Na tradução de Luiz Alberto Hanns para o artigo O Recalque, (1915/2004), edição que é traduzida diretamente do alemão para o português, temos a tradução Histeria de angústia, ainda que seja importante ver a nota 53 da pp. 191-192, onde o tradutor justifica a escolha do termo em detrimento do literal Histeria de medo. Na nota 49 (p. 191 deste mesmo texto) Hanns cita o outro artigo freudiano propondo a tradução Inibição, sintoma e medo. No original em alemão, a Gesammelte Werke, em todos esses momentos nos quais estas edições usam ansiedade ou angústia, é usada a palavra Angst que se traduz por medo. Sendo assim, justificamos os motivos pela qual utilizaremos durante esta postagem a palavra medo, ao invés de ansiedade ou angústia que é mais comumente utilizada no Brasil. Veremos como ela faz muito mais sentido no exemplo freudiano, em especial ao se ligar ao quadro de fobia.

Na histeria de medo o recalque acontece da seguinte forma: o afeto permanece na consciência e a representação é afastada da consciência e então substituída. Para melhor entendimento do leitor, Freud apresenta um exemplo desse processo com base em uma fobia animal, a saber, o Homem dos Lobos, caso que, naquele momento, Freud já trabalhava, mas só iria publicar três anos mais tarde, em 1918.

A fobia animal apareceu quando o Homem dos Lobos se deparou com a castração. Logo ele sentiu medo do pai, o “castrador”. O recalque acontece quando aparece justamente esse medo de ser castrado pelo pai. Assim, MEDO DE SER CASTRADO → MEDO DO PAI. Segundo Freud (1915/1974, p. 179, correções de tradução nossas), “a formação do substituto para a parcela ideacional [do representante pulsional] [a representação] ocorreu por deslocamento ao longo de uma cadeia de conexões determinada de maneira particular. A parcela quantitativa [o afeto] não desapareceu, mas foi transformada em medo”. Como a representação ligada ao medo do pai em função da castração foi removida da consciência, um substituto fóbico foi a solução. A partir daí a fobia se instaura, e como formação substitutiva, num segundo momento, por meio do processo primário de deslocamento, a representação que vai se ligar ao afeto que permaneceu no consciente. O que surge é o medo do animal, no caso, o medo do lobo.

Aqui podemos levar em consideração o aspecto econômico, pois no que se refere a evitar o desprazer, essa solução fóbica falha. O medo continua, a neurose continua, mas ao invés de ser o medo do pai, agora está destinada ao medo de um animal. Sendo assim o processo de recalque na histeria de medo, como diz Freud é falho porque ele precisa de dois momentos: o primeiro onde se desenvolve o medo, no caso do Homem dos lobos, do pai; mas que, como Freud mesmo coloca no artigo O Inconsciente (1915), primeiramente o indivíduo não sabe o que teme; e num segundo momento é onde se desenvolve a fobia, se identificando o objeto fóbico.




[1] Nesta edição temos como tradução para o Die Verdrängung alemão, o título A repressão.

sábado, 7 de maio de 2016

Duas formas de trânsito entre  os sistemas: o econômico e o tópico


Freud, no artigo O recalque (sobre o qual nos debruçamos neste ano de nossa pesquisa) até o momento (pág. 172 da Standard Edition, 1974) nos coloca duas formas de passagem que pode existir para que o representante supere o recalque e chegue ao Consciente. Estas duas formas já foram, de certa maneira, discutidas em outras postagens, mas julgamos ser de grande importância salientarmos este fato novamente, pois são elas de fundamental importância para a metapsicologia freudiana.
Aos que se interessarem, vale a pena conferir a postagem anterior no link abaixo:


Neste sentido, a representação, para ter acesso ao Cs., deve se modificar, ficando longe (enquanto significação) de sua forma original – o recalque original. Esta representação se liga à outras representações a fim de que se transforme, ficando muito diferente daquela do recalque original. Dissemos na postagem anterior que esta proximidade de significação tornaria impossível o acesso de tal representação ao Consciente pois de causar muito desprazer. Finalmente muito modificada a representação consegue ter acesso ao Consciente, onde lá, por sua vez seria suportável. Esta forma de acesso ao Consciente faz parte das explicações tópicas de Freud.
Uma outra forma de passagem ao Consciente é a forma econômica. Vejamos:

Ocorre aqui um delicado equilíbrio, cujo jogo não nos é revelado; no entanto, sua modalidade de atuação nos permite inferir que se trata de pôr um paradeiro à catexia [investimento] do inconsciente quando esta alcança certa intensidade - intensidade além da qual o inconsciente venceria as resistências, chegando à satisfação. (Freud, 1915, p. 173)

Freud nos coloca que uma das formas que o representante tem de acessar o Consciente é alcançando um alto investimento e assim superar as resistências. A dinâmica do recalcamento permite que a representação transite de um sistema para outro, buscando ter acesso ao Consciente. Porém, ela tem que ser modificada para não causar desprazer, ou então, obtendo grande energia, ultrapassa a barreira do recalque, mas pode causar grande desprazer.

Neste momento é interessante observar que, desta forma, se um representante teve que se alterar tanto assim para passar pela barreira do recalque, essa representação que seria experimentado pelo Cs. como desprazerosa, a partir desta alteração do representante pode ser experimentada como prazerosa no Cs.. Assim, o que causa prazer em um sistema pode causar desprazer em outro, dependendo de quanto este representante se altere ou de quanta energia ele possui para ultrapassar a barreira do recalque.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O tempo no inconsciente

O Inconsciente enquanto instância psíquica, tem como um dos grandes diferenciais das demais instâncias o fator atemporal, do alemão zeitlos, que diz de uma certa temporalidade peculiar existente no Inconsciente, na qual o passar do tempo não faz diferença. Levantamos esta discussão em decorrência de havermos encontrado, através da nossa pesquisa, a presença da palavra tempo em dois momentos na página 173, no texto d’O Recalque, no volume XIV da Edição Standard Brasileira das obras completas de Sigmund Freud.
A primeira aparição do emprego da palavra tempo se dá na seguinte frase: “Ao executarmos a técnica da psicanálise, continuamos exigindo que o paciente produza de tal forma, derivados do reprimido, que, em consequência de sua distância no tempo, ou de sua distorção, eles possam passar pela censura do consciente.”(Freud, 1915/1974, p.173, grifo nosso). E num segundo momento temos também o trecho:“Não podemos formular uma regra geral sobre o grau de distorção e de distância no temponecessário para a eliminação da resistência por parte do consciente” (Freud, 1915/1974, p.173, grifo nosso). No texto alemão, nas duas partes citadas acima Freud se utiliza das palavras Entfernung e Entstellung, que respectivamente podemos traduzir por distância e deformação.
As duas frases citadas dizem de um caráter temporal que eliminaria a resistência, possibilitando assim a passagem dos chamados “derivados do reprimido [recalcado]” para o Consciente, quando na verdade, temos de pensar a questão por um viés de significação. Os conteúdos que “orbitarem” mais longe (enquanto significação) do ponto de fixação do recalque original, tem mais chances de se ligarem a outras representações e acederem ao Consciente, independentemente do tempo em que foram recalcados.
A referência que temos da passagem do tempo não faz com que o recalque perca suas forças. Um fato que aconteceu na infância pode provocar efeitos quando adulto. Pois o Inconsciente não funciona com a mesma noção de tempo que o Consciente; a lógica é outra. O Inconsciente não reconhece a passagem do tempo.
Para melhor clarificarmos esta questão sobre os dois trechos ao qual a Standard Edition inseriu sem sentido a palavra tempo nestes trechos, vejamos estes dois mesmos trechos na edição da Companhia das Letras, volume XII, página 88: “No exercício da técnica psicanalítica, exortamos continuamente o paciente a produzir tais derivados do reprimido, que devido a sua distância ou deformação podem passar pela censura do consciente.” E o outro trecho: “De modo geral não podemos dizer até onde tem que ir o distanciamento e deformação do reprimido para que a resistência do consciente seja removida”. Também na tradução de Luiz Hanns, página 180, temos: “durante a prática da técnica psicanalítica, solicitamos continuamente ao paciente que produza as representações derivadas do recalcado que possam, em decorrência de sua distania ou de sua deformação, passar livremente pela censura do inconsciente”; e também “Em geral, não é possível determinar até onde o grau de deformação e o afastamento do recalcadoprecisam chegar para que a resistência do consciente seja suspensa”.
Cabe lembrar também que em nenhum dos dois trechos citados, no original alemão, a palavra Zeit(tempo) é utilizada.
Ainda mais. No artigo sobre o Inconsciente, escrito pouco tempo depois, Freud nos fala que: “Os processos do sistema Ics são atemporais, isto é, não são ordenados temporalmente, não são alterados pela passagem do tempo, não têm relação nenhuma com o tempo.” (Freud, 1915, p. 93-94)
Sendo assim, não nos restam dúvidas de que Freud nestes dois trechos que discutimos diz de um caráter de significação (nem de espaço nem de tempo), ou seja, como é ilustrado na figura abaixo, quanto mais distante enquanto significação, ou quanto mais distorcido em relação ao recalque original, menos resistência atua sobre os derivados do recalque, e desta forma mais fácil seu acesso ao Consciente. É importante salientar que usamos a palavra distanteno sentido de que a representação foi se transformando, ficando longe de sua forma original, o recalque original, para que assim possa superar a barreira do recalque e seguir para o Consciente.














domingo, 17 de abril de 2016

Urverdrängung – O Recalque Original

Continuando com a leitura do artigo sobre O recalque(1915) encontramos um novo termo freudiano para discutirmos a tradução. Na versão brasileira da Standard Edition temos a expressão repressão primeva, que corresponderia ao termo alemão Urverdrängung, para o qual propomos a tradução por recalque original, no mesmo rumo de nossas propostas anteriores de tradução. O prefixo Ur acrescentado ao substantivo Verdrängung nos traz uma nova concepção: algo ancestral, primevo, original; sempre lembrando que esse tempo ancestral não é cronológico, apenas lógico (o mesmo prefixo é utilizado em palavras como Urmenschtransformando a palavra mensch – homem, em homem primitivo).
Assim, Freud propõe a discussão deste recalque original (Urverdrängung) que, segundo ele, é a primeira etapa do recalque. Mas como isso acontece?
Este Recalque Original é uma das forças que impedem que o representante psíquico recalcado surja no Consciente. Então inicialmente tem-se um britamento da pulsão, da qual não podemos falar, pois nos faltariam palavras. Esta pulsão se liga a uma representação(Vorstellung), que por sua proximidade com a pulsão, não pode ser diretamente enviada ao Consciente, pois sofreria necessariamente um recalque. Desta forma, cabe enviar algo em seu lugar, um representante (Repräsentanz)dessa representação.Percebam que aqui usamos – e Freud também distingue assim- representaçãoe representante, para fazermos uma importante diferenciação: a representaçãoé aquela que se liga à pulsão (uma ideia, um conceito) e o representante é aquele que vai no lugar da representação (como o advogado representa seu cliente em uma audiência). O representante é então um substituto da representação.
Isto posto, teremos que este representante também é repelido ao tentar passagem para o Consciente, e com seu retorno se estabelece um ponto de fixação no Inconsciente no qual o representante permanece ali se ligando(colando, ficando junto) àquela pulsão que brotava.
Este Recalque Original, a partir da fixação que foi criada, ainda atua como uma força que atrai outros elementos (como um campo gravitacional), que podem se ligar a essa fixação, fazendo com que tudo o que se ligar a esta fixação e forçar passagem para o Consciente seja igualmente recalcado, ou seja, impedido de chegar ao Consciente. Estes demais conteúdos recalcados orbitarão essa fixação causada pela força do recalque original.
Qual a função do recalque original? Podemos dizer que o que foi fixado, ou seja, inscrito no inconsciente possibilita que aconteça o recalque secundário. As marcas do recalque original fortalecem o recalque secundário, possibilitando as aproximações gradativas a este conteúdo, de maneira a avançar nestes conteúdos inconscientes mais distantes do recalque original. Sendo assim, através da associação livre, chega-se o mais perto possível deste conteúdo originalmente recalcado e marcado sob o signo de uma forte fixação.