terça-feira, 11 de julho de 2017

Dissecando a Pulsão

Quando o conceito de Pulsão é estudado, há a aparição de alguns termos que precisam ser tomados para que haja um maior entendimento e os estudos caminhem; esses termos são: pressão, finalidade, objeto e fonte.
A pressão [Drang] de uma pulsão pode ser considerada como toda a quantidade de energia que ela exige, o trabalho que essa pulsão representa. A pressão é característica de todas as pulsões e podemos dizer que a essência da pulsão é exercer essa pressão. Como alternativas para a tradução do termo Drang, encontramos em outras versões impulso e perentoriedade.
Já a finalidade [Ziel], de toda e qualquer pulsão pode ser considerada como a satisfação, que será atingida quando a estimulação na fonte da pulsão for suspensa. Por outro lado, considerando também que a pulsão é uma força constante, talvez seja melhor pensarmos a satisfação mais no sentido de apaziguamento da pulsão do que no de eliminação. Para o termo Ziel, encontramos ainda as traduções por meta e fim.
O objeto [Objekt] de uma pulsão, é entendido como o meio que a pulsão usará para atingir a sua finalidade (satisfação). O objeto é o que mais varia em uma pulsão, ele depende, além da pulsão, da forma que ela será apaziguada; sendo possível que um mesmo objeto possa ser utilizado por pulsões diferentes para alcançar essa meta (satisfação). O objeto pode, ou não, ser algo incomum, visto que “pode ser modificado quantas vezes for necessário no decorrer dos destinos que a pulsão sofre durante sua existência” (Freud, 1915/1996, p.128). Não há distintas traduções para este termo.
Por fonte [Quelle] de uma pulsão, caracterizamos todo o processo somático que acontece no corpo ou parte dele, sendo este estímulo na vida anímica representado através de uma pulsão. Também não há distintas traduções para este termo.

Por fim, Freud diz que as pulsões são qualitativamente similares. O que as diferencia é sua quantidade de energia e a diferença em relação à fonte de cada uma. Mas isso já é assunto para outro dia.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Um conceito limite


Vamos tomar hoje uma frase que na Edição Standard brasileira, encontramos assim: “um ‘instinto’ nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático” (Freud, 1915/1996, p.127). Tal frase surge mais ou menos da mesma forma em dois outros textos: no Caso Schreber (1911/1996, p.81); e em uma nota acrescentada aos Três ensaios (1905/1972, p.171 – na edição de 1996 houve uma correção da tradução).

Tomemos a frase por partes. Sequer discutiremos a tradução do Trieb por instinto, pois já podemos acompanhar isto em outras postagens em nosso blog. Mas há que se atentar para o fato de que Freud não utiliza a palavra mental (em alemão, Mental) em nenhum momento de sua obra. Ele usa duas outras palavras – Seele/seelich (alma/anímico) e psychisch (psíquico). Nos interessa a ideia de que a pulsão seria um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático. Nesse sentido, se considerarmos aquilo que a tradução nos apresenta, a pulsão poderá ser esquematizada da seguinte maneira:
Dessa forma, podemos observar um dualismo, tal qual o proposto por Descartes para a mente e o corpo. É que a tradução brasileira nos induz a supor que há uma fronteira nítida entre estes dois pontos (dualismo) e que tal conceito é colocado sobre tal fronteira. Entretanto, a frase original de Freud é: “der Trieb als ein Grenzbegriff zwischen Seelischem und Somatischem“ (1915/1999, p.214). Uma tradução mais fidedigna seria: “ a pulsão como um conceito-limite entre anímico e somático”.
O que devemos pensar é que a pulsão brota no orgânico (quantidade) e é reconhecida do psíquico (qualidade). Com esta forma não há mais o dualismo mente-corpo, mas algo muito mais característico da proposta freudiana: uma dualidade, forma em que os pares de opostos necessitam um do outro para coexistirem (vale a pena conferir o Volume 3 do livro de Garcia-Roza, Introdução à metapsicologia Freudiana). Estes opostos apresentam em Freud um conflito (Zwiespalt, Konflikt). O anímico e o somático não são excludentes, mas possuem uma interseção, um conceito-limite – a pulsão, que podemos pensar, escapando ao dualismo, a partir do esquema abaixo:

Com esta nova visão, entramos em um novo questionamento: seriam então todas as nossas formas de adoecimento, formas psicossomáticas? Isso deixamos em aberto.
Abraços a todos,

terça-feira, 13 de junho de 2017

Estímulos Externos x Estímulos Internos

Considerando, a partir das leituras anteriores, que o estímulo [Reiz] pode ser eliminado através de uma ação motora em forma de descarga, enquanto a pulsão [Trieb] é constante e impossível de ser removida a partir de ações motoras – “jamais atuando como uma força que imprime um impacto momentâneo, mas sempre como um impacto constante” (Freud, 1915/1996, p.124, grifos do autor), nos deparamos com noção de um estímulo pulsional, descrito como aquilo que “ não surge do mundo exterior, mas de dentro do próprio organismo” (Freud, 1915/1996, p.124).

Esse estímulo pulsional tem origem interna no organismo, e por isso, não há uma forma de conseguirmos fugir dele. Sendo assim, podemos caracterizá-lo como uma necessidade [Bedürfnis] e, como toda necessidade, só é possível suspendê-la a partir da satisfação [Befriedigung – cabe localizar o radical desta palavra: Frieden, paz; daí pensarmos em um apaziguamento]. A satisfação trata de um apaziguamento dos estímulos pulsionais, não sua eliminação, havendo sempre um resto não eliminado, uma dissimetria entre a necessidade e seu apaziguamento; tendo como referência que o prazer é a diminuição de algo que havia aumentado, podemos dizer que, no desprazer há uma elevação da tensão (uma quantidade que aumenta) e, no prazer, uma diminuição. Com isso podemos pensar esquematicamente o princípio do prazer, como vemos abaixo:


Como diferenciação, temos então que os estímulos que podem ser evitados são atribuídos ao mundo externo, enquanto que os estímulos que se apresentam de forma constante vão dizer de um mundo interno e de suas necessidades pulsionais.

domingo, 4 de junho de 2017

Um primeiro questionamento

No decorrer do texto por nós discutido ao longo deste ano, Pulsões e destinos da pulsão, Freud nunca deixa de salientar que a pulsão constitui-se como um conceito ainda obscuro para a teoria psicanalítica, tanto no que diz respeito à sua observação clínica quanto, consequentemente, à sua definição teórico-conceitual. Apesar disso, Freud propõe uma distinção entre pulsão (Trieb) e estímulo (Reiz). Resumidamente, a pulsão pode ser considerada um estímulo aplicado à alma (alma aqui em um sentido muito distante do sentido religioso, simplesmente como aquilo que anima o corpo). Mas o que isso quer dizer? Em primeiro lugar, devemos salientar que a pulsão, de acordo com Freud, surge no organismo, sendo impossível removê-la a partir de uma ação motora. Assim, a pulsão é constante e irremovível. “[...] visto que ela [a pulsão] incide não a partir de fora mas de dentro do organismo, não há como fugir dela” (Freud, 1915, p. 124).


O estímulo, de uma maneira geral, pode ser eliminado em decorrência de uma ação motora em forma de descarga, devido à sua condição externa e momentânea. “Por exemplo, a luz forte que incide sobre a vista não é um estímulo pulsional; já a secura da membrana mucosa da faringe ou a irritação da membrana mucosa do estômago o são” (Freud, 1915, p. 124). Grande parte das edições dos escritos freudianos traduz o termo Trieb (sendo pulsão o termo que mais se aproxima da ideia original proposta por Freud) por instinto. Entretanto, Freud utiliza a palavra Instinkt para designar um determinismo anterior ao ser humano, ou seja, uma repetição cega da espécie. Nesse sentido, a partir da diferenciação terminológica entre pulsão, estímulo e instinto, surge um questionamento acerca do caminho seguido. Há, de início duas possibilidades para a discussão:

Estímulo - instinto - pulsão
ou
Estímulo - pulsão

A questão é se haveria em nós um instinto anterior ao surgimento da pulsão, ou se a dinâmica seria resumida apenas a um estímulo pulsional. Este questionamento ainda se mantém em nosso grupo, e será necessário avançar mais nas leituras para buscar uma resposta mais próxima ao texto freudiano. Esperamos que todos venham conosco nesta busca.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Uma prévia sobre pulsão, suas representações e o conhecimento científico


A pulsão é inicialmente citada como “instinto”, quando traduzida do inglês [instinct], ou como impulso/pulsão” quando traduzida do alemão [Trieb]. A pulsão, para Freud, é algo que nunca se torna objeto da consciência pois ela necessita de uma representação [Vorstellung] e ainda de um representante [Repräsentanz] que a conduza até o Consciente. Assim, o que pode vir a se tornar  consciente é o representante desta representação [Vorstellungsrepräsentanz]. Para Freud, no texto sobre O recalque, “além da representação, outro elemento representativo da pulsão tem de ser levado em consideração” (Freud, 1915/1996, p.157). Nesse sentido, partindo da ideia inicial de uma indistinção entre a própria pulsão e seu representante, Freud irá traçar nos textos seguintes, em especial O recalque e O inconsciente, uma distinção mais acentuada entre estes dois pontos.
As nomeações para as moções pulsionais [Triebregingen] surgiram pela primeira vez em Atos Obsessivos e Práticas Religiosas (Freud, 1907/1996), mas já existiam anteriormente caracterizados como excitações ou estímulos endógenos. Podemos diferenciar o estímulo da pulsão a partir de sua constância: enquanto o estímulo se dá como uma força geradora de um impacto, a pulsão atua como uma força que é sempre constante. Até 1910, Freud dizia de uma pulsão sexual que usava da libido como expressão; só depois o conceito de pulsão do eu foi introduzido aos textos como um impulso de autopreservação; a pulsão de morte só vem a surgir no ano de 1920, em Além do princípio de prazer, sendo nela consideradas as pulsões agressivas e destrutivas.
Durante o nosso estudo, nos depararemos com variados conceitos e até mesmo divergências entre eles – como já ocorrido até o momento. Para isso, é importante que saibamos como o conhecimento científico é elaborado, e nesse sentido Freud apresenta uma boa introdução em seu texto Pulsões e destinos da pulsão (1915/1996). A primeira etapa é a descrição do fenômeno a ser o objeto de estudo; as ideias que aparecerem nessa etapa serão os conceitos básicos da ciência; os conceitos científicos só serão elaborados após uma investigação completa no campo da observação, e assim se tornará uma definição.
A pulsão pode ser considerada como um conceito básico, que apesar de essencial ainda necessita de um aprofundamento em seus estudos. Esse conceito esbarra e atravessa conteúdos de diversos ângulos, como por exemplo, o estímulo e estímulo mental em fisiologia. Nesse sentido, tentaremos, nos próximos encontros, estabelecer um diferencial entre estímulos fisiológicos, estímulos instintuais (no sentido biológico) e estímulos pulsionais.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Retomando as atividades

Após um longo período de publicações referentes aos anos de 2015 e 2016, objetivando realizar leituras acerca dos conceitos fundamentais da Psicanálise, nosso grupo de pesquisa da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) retorna novamente ao seu trabalho e, nesse ano de 2017 temos como finalidade efetivar um estudo detalhado do conceito de Pulsão (Trieb) na obra de Freud. Como sempre, buscamos a compreensão dos conceitos fundamentais da Psicanálise através da leitura atenta e dirigida dos textos freudianos, em diversas versões, inclusive o texto original alemão.
Visto que nos anos de 2015 e 2016 foram estudados os conceitos de Inconsciente e recalque, respectivamente, considerou-se plausível uma análise minuciosa do texto Pulsões e destinos da pulsão (Triebe und triebschicksale), escrito por Sigmund Freud em 1915. As versões utilizadas, até então, serão as seguintes: duas edições diferentes da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – 1987 e 1996, ambas da Imago; a tradução de Luiz Hanns das Obras psicológicas de Sigmund Freud, também da Imago; a versão da Editora Delta, mais rara e difícil de se encontrar no Brasil, intitulada Obras completas de Sigmund Freud; a versão inglesa The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud da The Hogarth Press; a edição da Companhia das Letras: Sigmund Freud – Obras completas; a versão traduzida direta do alemão ao espanhol de Luis López Ballesteros y de Torres, intitulada Obras Completas, da editora Biblioteca Nueva; a versão argentina Obras completas – Sigmund Freud da Amorrortu Editores; a versão alemã Gesammelte Schriften da Internationaler Psychoanalytischer Verlag; e a versão alemã Gesammelte Werke, publicado pela Fischer Taschenbuch Verlag.

Assim nosso blog será novamente atualizado com publicações a respeito dos conceitos discutidos, visando sempre destrinchar as ideias de Freud, da maneira mais fidedigna possível aos escritos por ele elaborados, visto que as traduções dos textos freudianos possuem terminologias empregadas de maneira divergente e até mesmo imprecisa, dificultando assim a compreensão das ideias originalmente elaboradas pelo autor.
Sejam todos novamente bem-vindos.
Aguardamos as leituras e comentários de todos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Aviso aos navegantes IV

Como já postamos anteriormente, ao longo da obra de Freud na tradução brasileira da Standard Edition, encontram-se escolhas de tradução que por vezes são feitas de forma indistinta, outras por opção de palavras que não se faz muito clara e acessível, usando palavras pouco usuais no português cotidiano, e é claro, encontramos muitos erros de tradução. E mais uma vez nos deparamos com percalços deste tipo que são de extrema importância elucidar para nossos leitores, pois estes pontos fazem toda a diferença para a compreensão do que o pai da psicanálise queria nos propor.
Sendo assim, no texto O recalque de 1915, na edição de 1974, página 171, encontramos um trecho em que Freud nos fala sobre o segundo momento do recalque, o recalque propriamente dito. Vejamos o trecho em que Freud está falando sobre os chamados derivados mentais (já aqui a melhor tradução seria por derivados psíquicos [psychische Abkömmlinge]) e as ligações que vão ocorrer entre tais derivados, o que foi recalcado posteriormente e o recalque originário.
Além disso, é errado dar ênfase apenas à repulsão que atua a partir da direção do consciente sobre o que deve ser reprimido; igualmente importante é a atração exercida por aquilo que foi primevamente repelidosobre tudo aquilo com que ele possa estabelecer uma ligação. (...) Provavelmente, a tendência no sentido da repressão falharia em seu propósito, caso essas duas forças não cooperassem, caso não existisse algo previamente reprimido pronto para receber aquilo que é repelidopelo consciente. (FREUD, 1915/1974, p.171-172, grifos nosso)

Encontramos no trecho acima três palavras em destaque para as quais chamamos a atenção para as questões de tradução. Para a primeira em destaque, repulsão, temos no original freudiano a palavra Abstoßung, que se traduz por empurrão, repulsa. Aqui Freud se refere à força exercida pelo Consciente sobre a representação recalcada. Já na segunda palavra que destacamos, repelido, Freud usa o Urverdrängte, que se traduz, como já dissemos anteriormente, por recalque originário, portanto, um erro flagrante de tradução. Temos ainda, uma terceira palavra em destaque, o repelido (Abgestoßene), que está também correta, ou seja, se refere àquela representação que chega ao Inconsciente advinda do Consciente e que, no Inconsciente vai se ligar a outros elementos, oriundos do recalque originário.
Assim notamos uma nova falha na tradução para o português. Além da escolha de tradução da palavra Verdrängung por repressão durante o texto, também temos a confusão na tradução entre duas palavras, bem à maneira das ligações inconscientes, as palavras na edição brasileira se misturam e surgem, uma no lugar da outra. Temos dois momentos em que Freud fala do que foi repelido, ao início e ao fim do trecho por nós citado. Entretanto, ao meio, a palavra Urverdrängtefoi traduzida erroneamente, também por repelido.
Fato interessante é que esta tradução se dá erroneamente apenas em português. A versão inglesa corretamente traduz o Urverdrängte por primally repressed concordando com sua proposta de tradução. Ainda que não concordemos com a escolha de tradução (repressão ao invés de recalque), temos que notar que há uma coerência na tradução do alemão para o inglês. Já a versão brasileira, perde ainda mais com a tradução, errando a 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O recalque na neurose obsessiva.



Apenas a título de ilustração, cabe lembrar que a palavra usada por Freud para o que conhecemos como Neurose Obsessiva é Zwangsneurose, que literalmente, deveria ser traduzia por Neurose Coerciva (de Zwang – coerção, coação). A tradução desta palavra (Zwang) por obsessão ou por compulsão se deveu às escolas inglesa e francesa de psiquiatria, respectivamente. Entretanto nenhuma das duas palavras apresenta a principal característica do pensamento daqueles que costumamos chamar de Neurótico obsessivo – a obrigatoriedade do pensamento, a sensação de ser coagido, de ter que pensar coercitivamente. Um pequeno exemplo para nos ajudar a entender. Normalmente não agimos agressivamente contra um amigo, mas imaginem a situação: uma pessoa coloca uma arma em sua cabeça e lhe diz para agredir fisicamente um amigo que se encontra à sua frente. Ainda que você não queira, você acaba por fazê-lo. Esta é a ideia de coerção incluída na palavra alemã, esta é a forma como o pensamento do obsessivo acontece. De toda forma, manteremos a tradução Neurose Obsessiva, posto que esta se estabeleceu no meio psicanalítico brasileiro.
Agora, partiremos para a terceira e última forma de recalque que Freud nos apresenta no texto O recalque (1915/1974), sobre a neurose obsessiva. Freud no início do trecho sobre a neurose obsessiva (p.180) vem nos dizer de sua dúvida, se o que é recalcado é um anseio sádico ou hostil do representante, e ao longo do texto nos apresenta que na verdade um anseio sádico entrou no lugar de um anseio amoroso, e é exatamente este anseio hostil contra uma pessoa amada que sofre o recalque.
Freud coloca que em um primeiro momento o recalque tem sucesso absoluto, pois o conteúdo da representação é recusado (abgewiesen) e o afeto desaparece (Verschwinden). O Eu se altera devido a uma formação substitutiva e há um aumento de conscienciosidade, o que não pode ser chamado de sintoma. O que podemos notar então é que Freud distingue formação substitutiva de sintoma. O que vemos nesse caso é que o mecanismo do recalque coincide com o da formação reativa, mas difere temporal e conceitualmente da formação de sintoma.
Após este primeiro momento, o sucesso que parecia certo não se mantém. A ambivalência que permitiu o recalque por meio da formação reativa é o mesmo ponto que permite àquilo que foi recalcado retornar.
A representação recusada volta agora como um substituto por deslocamento, e o fracasso do fator afetivo retorna como evitações e proibições, como discutimos anteriormente sobre as fobias histéricas (ver postagem sobre O recalque na histeria de medo), ainda que haja uma tendência de que tal representação retorne completa e intacta. De toda forma, à representação é recusado o acesso ao Consciente, o que promove o impedimento da ação, travando o impulso motor. O recalque na neurose obsessiva é, portanto, um fracasso que resulta em uma luta sem êxito nem fim.
O pensar obsessivo é caracterizado por distorções. O obsessivo fica absorto na esfera do pensamento e acaba procrastinando a descarga da tensão através de longos processos de ruminação. Apresenta em seu discurso o deslocamento de afeto de uma representação para outra, já que grandes males o aguardam caso a sua ação não seja simétrica aos padrões de seu pensamento. Entra aqui em cena o processo de Inibição, que nada mais é do que a inibição da descarga motora da pulsão. Pensando no famoso esquema do pente (ver a postagem sobre as Três barreiras à representação), o processo se interrompe sem chegar ao fim, a descarga motora.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O recalque na histeria de conversão

Continuando com os processos de recalque nas três neuroses, vamos agora para a Histeria de conversão, na qual Freud aponta para uma diferença importante no processo do recalque.

Aqui diferentemente da Histeria de medo onde o que é recalcado é a representação, o processo do recalque proporciona um completo desaparecimento do afeto. Dessa forma o paciente apresenta um estado que, segundo Freud, Charcot denominou de la belle indifférence des hystériques. Indiferença no sentido de que os sintomas, como as clássicas paralisias de membros, não chegam sequer a incomodar o paciente.

Outra maneira, que não obtém tanto sucesso quanto a primeira, ocorre quando alguma parte do afeto se liga ao sintoma, ou há uma liberação parcial de medo. Nesse caso a parte representacional do representante pulsional [a representação] é completamente privada da consciência. No lugar desta representação “(...) como um substituto - e ao mesmo tempo como um sintoma - temos uma inervação surperforte (em casos típicos, uma inervação somática), às vezes de natureza sensorial, às vezes, motora, quer como uma excitação, quer como uma inibição” (Freud, 1915/1974, p.180). Por meio do processo de condensação essa área superinervada, uma parcela do próprio representante pulsional recalcado, age atraindo todo o seu investimento.


No que se refere ao êxito do recalque na Histeria de conversão, podemos considerá-lo em dois aspectos: em um primeiro, podemos considerar falho pelo fato de que fica-se buscando uma grande quantidade de substitutos no corpo (em sua maioria) para aquilo que foi recalcado; por outro lado, podemos considerar o recalque na histeria de conversão alcançando êxito pelo fato de que “(...) o processo do recalque é completado pela formação do sintoma, e não precisa, como na histeria de medo, continuar até uma segunda fase – ou antes, rigorosamente falando, continuar interminavelmente. (Freud, 1915/1974, p.180).

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O recalque na histeria de medo.


Antes de começarmos a discutir o que Sigmund Freud, em seu artigo Recalque (1915), fala especificamente a respeito da Histeria de medo, vamos esclarecer um ponto que, dentre as edições que usamos para as nossas discussões semanais em nosso grupo de pesquisa, se faz muito presente: medo, ansiedade ou angústia?

A Standard Edition usa, ao longo da obra freudiana, a palavra ansiedade para traduzir o alemão Angst. Por exemplo, no artigo Recalque (1915/1974, p. 178),utiliza-se a tradução Histeria de ansiedade; temos também um famoso artigo, Hemmung, Sympton und Angst, traduzido por Inibições, sintomas e ansiedade (1926[1925]/1974). Na Edição da Companhia das Letras, o artigo sobre o Recalque[1](1915/2010), encontramos Histeria de Angústia, para o outro artigo encontramos o título é: Inibições, sintomas e angústia. Na tradução de Luiz Alberto Hanns para o artigo O Recalque, (1915/2004), edição que é traduzida diretamente do alemão para o português, temos a tradução Histeria de angústia, ainda que seja importante ver a nota 53 da pp. 191-192, onde o tradutor justifica a escolha do termo em detrimento do literal Histeria de medo. Na nota 49 (p. 191 deste mesmo texto) Hanns cita o outro artigo freudiano propondo a tradução Inibição, sintoma e medo. No original em alemão, a Gesammelte Werke, em todos esses momentos nos quais estas edições usam ansiedade ou angústia, é usada a palavra Angst que se traduz por medo. Sendo assim, justificamos os motivos pela qual utilizaremos durante esta postagem a palavra medo, ao invés de ansiedade ou angústia que é mais comumente utilizada no Brasil. Veremos como ela faz muito mais sentido no exemplo freudiano, em especial ao se ligar ao quadro de fobia.

Na histeria de medo o recalque acontece da seguinte forma: o afeto permanece na consciência e a representação é afastada da consciência e então substituída. Para melhor entendimento do leitor, Freud apresenta um exemplo desse processo com base em uma fobia animal, a saber, o Homem dos Lobos, caso que, naquele momento, Freud já trabalhava, mas só iria publicar três anos mais tarde, em 1918.

A fobia animal apareceu quando o Homem dos Lobos se deparou com a castração. Logo ele sentiu medo do pai, o “castrador”. O recalque acontece quando aparece justamente esse medo de ser castrado pelo pai. Assim, MEDO DE SER CASTRADO → MEDO DO PAI. Segundo Freud (1915/1974, p. 179, correções de tradução nossas), “a formação do substituto para a parcela ideacional [do representante pulsional] [a representação] ocorreu por deslocamento ao longo de uma cadeia de conexões determinada de maneira particular. A parcela quantitativa [o afeto] não desapareceu, mas foi transformada em medo”. Como a representação ligada ao medo do pai em função da castração foi removida da consciência, um substituto fóbico foi a solução. A partir daí a fobia se instaura, e como formação substitutiva, num segundo momento, por meio do processo primário de deslocamento, a representação que vai se ligar ao afeto que permaneceu no consciente. O que surge é o medo do animal, no caso, o medo do lobo.

Aqui podemos levar em consideração o aspecto econômico, pois no que se refere a evitar o desprazer, essa solução fóbica falha. O medo continua, a neurose continua, mas ao invés de ser o medo do pai, agora está destinada ao medo de um animal. Sendo assim o processo de recalque na histeria de medo, como diz Freud é falho porque ele precisa de dois momentos: o primeiro onde se desenvolve o medo, no caso do Homem dos lobos, do pai; mas que, como Freud mesmo coloca no artigo O Inconsciente (1915), primeiramente o indivíduo não sabe o que teme; e num segundo momento é onde se desenvolve a fobia, se identificando o objeto fóbico.




[1] Nesta edição temos como tradução para o Die Verdrängung alemão, o título A repressão.